Do blog para o papel. Autor vai além da internet e publica primeiro livro, mantendo sua real identidade oculta e evitando a fama
Sucesso da internet desde 2004, o escritor Ordisi Raluz passa do monitor ao papel e publica seu primeiro livro, Contos&Descontos (editora Os Viralata), uma coletânea de alguns de seus melhores textos, sempre temperados de sofisticação e mostrando os relacionamentos como eles são, com sensualidade, embora sem apelos eróticos.
A obra é bem-humorada, de leitura fluente, e o autor manipula a linguagem de forma muito própria e agradável, aproximando-a da oralidade sem perder o trato. Contos&Descontos é dividido em quatro partes, já que Raluz apresenta várias facetas como escritor: o cronista aparece em “Contando Contos”, o autor de enigmas e textos incomuns em “Descontos, Contados”, assim como há o poeta de “Comversando” e o quase novelista de “Falando Séries”, última parte, em que Ordisi Raluz contextualiza e transforma em sagas alguns de seus contos mais populares. Em todas as partes há a presença de jogos de palavras criativos e abordagens novas e interessantes dos elementos da vida comum.
Apesar de sua incursão ao mundo do papel, Ordisi Raluz mantém seu bem-sucedido blog no endereço http://ordisiraluz.blogspot.com/, assim como opta por vender seus livros também pela internet, encomendados no site da editora, http://www.osviralata.com.br/. Vale a pena conferir e juntar-se ao misterioso autor em sua primeira obra publicada. A seguir, um dos muitos contos que valem a pena conferir:
Café com rum
A chuva caía forte. Dois corpos rolavam entrelaçados na penumbra. Trovões abafavam os gemidos. Línguas procuravam por bocas, bocas por seios, seios por mãos, mãos por dedos, dedos por lugares. Vertigens, arrepios e gritos sufocados até a doce exaustão do prazer. Parcos raios de sol forçavam as cortinas quando Florence colocou o vestido de alcinhas, calçou as sandálias, pegou a bolsa e saiu. Só então Rosana percebeu que, dela, só aprendera o nome e o corpo.
Naquela manhã, Rosana se enfiara no vestidinho de alcinhas, branco com delicadas estampas florais. Os pés brincaram com as sandálias rasas, de couro batido, enquanto as calçava. Sentiu-se deliciosamente confortável para enfrentar o dia nublado e abafado, digitando sua tese no computador. Era o que fazia quando a luz acabou.
— Merda! — gritou, como se o ex-marido ainda estivesse lá, pronto para acalmá-la. Respirou fundo, desceu as escadas e foi para a varanda olhar a chuvarada. Deu com Florence ensopada, encostada na árvore em frente.
Tailleur bege, bolsa e escarpins marrons. Um lenço de seda estampado tentava, displicente, ocultar a transparência da blusa que afrontava a formalidade do traje. Florence havia assinado os papéis do divórcio e, exultante, caminhava para o carro quando a chuva desabou. Passava por uma rua de sobradinhos antigos, avarandados. Encostou-se numa árvore, mas não pôde evitar: em segundos a água insinuou-se, penetrando as vestes que agarraram-se à pele arrepiada, revelando, para um público ausente, os detalhes voluptuosos daquele corpo exuberante. De súbito, a moça apareceu na varanda bem em frente.
— Entre aqui — Rosana convidou-a sem hesitar.
— Obrigada — Florence aquiesceu e, depois de subir os três degraus de cerâmica, foi recebida de forma inusitada.
— Que maquiagem você está usando? — perguntou a jovem, sem a menor cerimônia.
— Trouxe da França. É antialérgica também! — a resposta veio sem pestanejar.
— Só podia. Você encharcada até os ossos e com a maquiagem perfeita! Venha — continuou — Vamos tomar um café na cozinha.
— Café com rum? — foi a vez de Florence igualar o jogo.
— Que seja, café com rum! — Rosana não se deu por achada.
E riram como se se conhecessem do colégio.
A trilha de água marcava o curto roteiro desde a varanda até a poça no chão da cozinha. Lá mesmo, onde descalçou os sapatos, Florence desnudou-se enquanto Rosana trazia uma toalha e o roupão do ex. Passou a toalha pelos cabelos curtos, ajeitando-os com os dedos. Aninhou-se no roupão, satisfeita, enquanto a outra foi para o fogão, onde a chaleira apitava. Sentiu uma sensação muito diferente quando mirou sua benfeitora. Tinha que lhe dizer algo em agradecimento e, mansamente, dela se aproximou. Rosana virou a cabeça e sorriu por sobre o ombro, quando Florence encostou-se por detrás, abraçou-a pela cintura e sussurrou em seu ouvido:
— Obrigada, doçura.
Arrepiada, Rosana voltou-se e, num impulso cego, a outra lhe tomou o rosto com as mãos, encostando carinhosamente seus lábios nos dela.
Semanas depois, num dia de sol, Rosana decidiu vestir o tailleur bege com os escarpins marrons que Florence lá deixara para — afinal — ir assinar os papéis. Um lenço de seda estampado tentava, displicente, ocultar a transparência da blusa que afrontava a formalidade do traje. Exultante, voltava para o agora seu sobrado próprio. De longe avistou, encostada na árvore, uma linda mulher trajando um vestido branco de alcinhas, sandálias de couro e uma bolsa marrom que combinaria melhor com o tailleur que trajava. Olharam-se sorridentes e sequiosas.
— Que tal um café com rum?
Passando a varanda, foram engolidas pela penumbra do sobradinho.
SERVIÇO:
Contos&Descontos
Autor: Ordisi Raluz
Editora: Os Viralata
Páginas: 196
Quanto: R$28 (com frete)
Onde comprar: encomenda à editora,
pelo site http://www.osviralata.com.br
Press Página Projetos de Comunicação
Jornalista responsável: Heloísa Paiva
Assistentes de redação: Jorge Valério, Natália Maldonado, Bruno Ramalho
(11) 3266.8783 // 3283.0208 // www.ppagina.com.br
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Obrigado pela visita. Todo comentário é moderado.
Palavrões,ofensas e assemelhados não são aceitos, assim como textos fora do contexto do post e/ou com link para outro site.