terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Escorpionismo infantil


Estudo feito na Unicamp aponta alta prevalência de acidentes graves com picadas de escorpião em crianças (foto: Fiocruz)
22/01/2008

Por Thiago Romero

Agência FAPESP – Um levantamento epidemiológico realizado no Centro de Controle de Intoxicação (CCI), vinculado ao Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), destacou a alta incidência de acidentes graves causados por escorpião envolvendo crianças. Dos 29 casos graves atendidos no HC entre janeiro de 1994 a dezembro de 2005, 28 eram de pacientes com menos de 14 anos.

Foram analisados 922 casos presenciais de acidentes com escorpiões ocorridos em Campinas e região, incluindo cidades como Sumaré, Indaiatuba, Nova Odessa, Americana e Piracicaba. O trabalho utilizou como fonte de informações a revisão do banco de dados de atendimentos do CCI e os prontuários dos pacientes internados no HC.

A gravidade dos casos foi classificada de acordo com critérios estabelecidos pelo Ministério da Saúde, indo de leve – quando o paciente apresenta sintomas como dor local, taquicardia e agitação – até grave, caracterizado por vômitos freqüentes, hipertonia muscular e edema pulmonar agudo, passando por casos moderados e assintomáticos.

Dos 922 indivíduos atendidos, 2,9% não apresentaram sintomas, 3,1% dos casos foram considerados graves, 11% moderados e 83% leves. “Muito dificilmente as picadas de escorpião em adultos geram casos graves. Talvez isso ocorra por eles terem superfície corporal maior que a das crianças, que são mais sensíveis ao veneno”, disse Fábio Bucaretchi, coordenador do CCI e professor da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, à Agência FAPESP.

“Sabemos que, nos casos mais graves de envenenamento, as crianças picadas sofrem uma forma diferente de agressão ao miocárdio, chamada de miocardiopatia escorpiônica, que é caracterizada por vários microinfartos. Alguns trabalhos científicos evidenciam ainda que, de acordo com a idade, a resposta do miocárdio pode ser diferente a determinados agravos como a picada de escorpião. Essa é uma hipótese que deve ser perseguida e comprovada”, indicou.

Segundo Bucaretchi, quando são picados e logo começam a sentir os primeiros sintomas, muitos pacientes adultos não vão até o Hospital de Clínicas da Unicamp: são atendidos por meio de telefone pelos serviços de saúde, tomam uma medicação específica e apresentam grande melhora, conseguindo permanecer no nível de gravidade considerado “leve”.

“Por outro lado, as crianças normalmente recebem uma quantidade maior de veneno. Sua pele é mais vascularizada, o que permite uma inoculação em maior concentração na circulação sangüínea. O fato de existir diferentes respostas à toxina dependendo da idade do paciente também é uma questão que precisa ser mais bem estudada em modelos experimentais”, explicou.

Maioria masculina

De acordo com o trabalho feito no CCI, escorpiões foram trazidos para a identificação por 393 pacientes, sendo que 67,7% haviam sido picados por exemplares da espécie Tityus bahiensis e 32,3% por Tityus serrulatus.

“Mas, em 2007, o número de animais trazidos para nossa análise passou a ser equivalente entre as duas espécies. Hoje, a maioria dos casos notificados atualmente em todo o país, principalmente em Minas Gerais, São Paulo e Bahia, já está relacionada ao Tityus serrulatus, o escorpião-amarelo, que se adapta muito bem ao ambiente urbano e tem reprodução assexuada”, explicou.

O trabalho, apresentado em novembro no 15° Congresso Brasileiro de Toxicologia, em Búzios, destacou ainda que a maioria dos acidentes ocorreu entre indivíduos do sexo masculino (62,7%) e na faixa etária entre 20 e 49 anos (48,3%). As picadas foram mais freqüentes nas mãos (39,8%) e nos pés (23,3%).

No fim do ano passado, a Agência FAPESP publicou reportagem sobre relatório do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que ressaltou que os escorpiões são responsáveis por 35% dos casos de envenenamento por animais peçonhentos no Brasil.

O estudo usou os dados mais recentes sobre intoxicações em humanos, referentes a 2005. Foram registrados naquele ano 84.456 casos de intoxicação em seres humanos no país, sendo que os animais peçonhentos respondem por 23.647 (28%). Desse total, 8.208 (35%) envolveram escorpiões.

“Aproximadamente 38 mil novos casos de picada por escorpião são notificados por ano pelo Ministério da Saúde. Mas existe muita subnotificação nesses dados à medida que muitas picadas não são registradas. Hoje, a mortalidade por acidentes com picadas de escorpiões no Brasil gira em torno de 30 a 55 casos anuais, sendo 80% em crianças com menos de 14 anos”, disse Bucaretchi.

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