domingo, 30 de março de 2008

A gente vai levando...

Edvaldo Tavares*
A mais recente greve dos produtores agrícolas na Argentina, que completou 15 dias na última quinta-feira, teve início devido à cobrança de um pedágio sobre as exportações de grãos. A paralisação, que veio acompanhada do bloqueio de estradas, gerou uma grave escassez de alimentos para a população da capital e de outras províncias argentinas.
A recém-eleita presidente Cristina Kirchner vem enfrentando a primeira grande crise interna do país. Há dois dias, manifestantes tomaram Buenos Aires para protestar, através de um panelaço, contra a decisão econômica do governo. Outros chegaram à Praça de Maio, centro dos confrontos, para apoiar a medida.
No Brasil, o mais recente escândalo dos Cartões Corporativos levou a ministra Dilma Rousseff a afirmar que um banco de dados com os gastos do governo Lula está sendo elaborado. Denúncias afirmam que o seu braço-direito, a secretária executiva da Casa Civil, Eunice Guerra, encomendou a organização de um dossiê com as despesas feitas pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, por sua mulher, Ruth Cardoso, e pelos seus ministros durante a gestão tucana de 1998.
No Rio de Janeiro, apesar de muitas autoridades ainda não admitirem que se trata de uma epidemia, a dengue se alastra e já virou um problema de saúde pública. O prefeito da capital carioca, César Maia, aproveitou a viagem que fez à Bahia para rezar pela cidade. "Pedi ao Senhor do Bonfim que nos ajude, que leve o mosquito da dengue em direção ao oceano e que nos proteja. Isso é uma energia muito forte que temos na Bahia. E vim aqui para levar ela para o Rio."
Achamos que o prefeito deveria estar encarando o problema ao invés de apelar para forças sobrenaturais.
No dia 14 de março foi feito um levantamento pela consultoria Ernst & Young que revelou que o imposto de renda pago pela classe média brasileira é o mais alto entre todos os países sul-americanos. Entretanto, os cidadãos seguem aceitando tais imposições sem resistência. Diante de todas as crises e revelações diárias que surgem em nosso país, por que a população brasileira não vai às ruas protestar?
Uma nação acovardada – já passou da hora
Presencia-se o pipocar de denúncias diárias que não chocam mais o senso de moralidade do povo brasileiro. Espanto causa um dia sem denúncia às mentes já, há anos, entorpecidas. Por aceitação, dispensada a justificativa de pura comodidade, a corrupção, o roubo, a mentira e a traição, fazem parte do conformismo da parcela maior do subjugado povo brasileiro. Ouvem-se, ao longe, algumas vozes de minguados inconformados em tímida e patológica ecolalia.
Como é bom ler o registro histórico sobre a importância que representou a vinda da Corte Portuguesa para o Brasil, escrito pelo Coronel do Exército Brasileiro, Manoel Soriano Neto. A imaginação cria asas e dá origem ao sonho: "Que maravilhoso seria se tivéssemos governantes com o mesmo tino progressista e visão de estadista de Dom João VI. Dom João amava o Brasil!"
Infelizmente, este exemplo, perdido nas páginas do século XIX, é ignorado pelos personagens atuais, não se importando com os acontecimentos que ocorrem hoje -- no século XXI. Dirigentes desvinculados com o destino do país, desconhecedores do desenvolvimento iniciado 200 anos atrás, imprimem retrocesso que será gravado na História do Brasil.
Mais a frente, inseridas no tempo futuro que virá, gerações decepcionadas olharão para o mapa do Brasil, e com vergonha lembrarão: "O quanto foram covardes os meus antepassados. Entregaram-nos um Brasil menor, sem a Amazônia!" Este é o mesmo sentimento que tenho quando olho para o Estado de Roraima e sinto falta de um pedaço, o Pirara.
Estamos, em pleno século XXI, a repetir a mesma atitude acovardada e incompetente da geração da transição do século XIX para o XX. A covardia passou a assumir a ordem do dia. Somos assaltados em todos os sentidos. O governo acintosamente nos rouba com as suas injustas tributações e, além de embolsar grande parte do dinheiro que nos foi arrancado, distribui o restante em inúteis empreendimentos demagógicos encobertos sob a capa da imoralidade intitulada como social.
O povo brasileiro, tão anestesiado, existindo com se fosse zumbi, sobrevive alimentando de igual forma ao executivo, um voraz legislativo, caríssimo, corrupto e inútil, que representa apenas, de forma eficiente, a defesa dos próprios interesses, esquecido de que foi eleito pelo povo para a defesa do mesmo. O judiciário, perdido, igualmente arrebatador do conteúdo dos bolsos do contribuinte, não sabe o que fazer e quando faz alguma coisa é de forma ineficiente e desacreditada.
A violência campeia, vinda de todas as direções e dos diversos escalões. O povo, tonto e sem saber o que fazer, é a única vítima.
Até quando os homens de coragem e decisão assistirão, inertes, o Brasil se acabar? Será que ao longo das sucessivas gerações as transmissões genéticas vindas dos heróis -- que verteram sangue para nos legar este imenso território para o projetarmos no mundo como uma grande nação denominada Brasil -- sofreram mutações originando um povo frouxo? Será que foi injetado na barriga das nossas mães material deteriorado e hoje somos uma nação de covardes?
Com a palavra, o povo brasileiro!
* Tenente-Coronel Médico do Exército Brasileiro, Especialista e Perito em Medicina de Tráfego (ABRAMET). Autor do livro "Sucesso na vida é para qualquer um. Inclusive para você!". Ex-diretor do Hospital de Guarnição de Tabatinga, Tabatinga/AM.

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