quarta-feira, 21 de maio de 2008

Lição de maturidade

José Arthur Assunção*

Como um dos representantes do setor financeiro desse país, sinto-me na obrigação de escrever essas linhas para tratar de um fato que muita gente esclarecida desconhece ou finge desconhecer: os reais motivos do uso de dinheiro público no socorro a bancos privados. Pois bem, vamos aos fatos: Em 1999, o nosso banco central, numa decisão solitária, mas muito corajosa, socorreu, com dinheiro público, bancos que estavam à beira da falência.

Nas últimas semanas, o Federal Reserve (Fed) – banco central americano – fez uma injeção financeira substancial no Bear Stearns, quinto maior banco de investimentos dos Estados Unidos, usando também dinheiro público.

Após saneá-lo, o vendeu por uma quantia irrisória dias depois. E lá pelas terras da rainha Elisabeth II, o banco central inglês fez, novamente com dinheiro público, uma injeção financeira substancial no Northern Rock, quinto maior banco inglês de hipotecas.

Em seguida, a instituição foi estatizada. Vamos fazer então uma comparação: o socorro dado pelos dirigentes do banco central brasileiro em 1999 aos bancos Marka e Fonte Cindam não foi semelhante ao que ocorreu agora nos Estados Unidos e na Inglaterra? E se o nosso BC não socorresse esses bancos, o que aconteceria? Simples. A Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) - hoje a terceira bolsa do mundo, após a fusão com a Bovespa , teria quebrado e, com ela, todo o sistema financeiro do país.

A questão é que havia um risco sistêmico, que travaria a nossa economia, ocorrendo um colapso no mercado financeiro e no país como um todo. Ah! Mas que coisa boba! Que gente é essa que ajuda empresas privadas, quando tanta gente no mundo passa fome? Pois bem, essa é a retórica de muita gente esclarecida.

Uma parte dessa gente esclarecida não é tão esclarecida assim como se pensa. E outra parte dessa gente esclarecida quer ver mesmo é o circo pegar fogo para faturar benesses políticas futuras. A última coisa que importa para esse pessoal, seja de que partido for, é o bem do Brasil.

O poder, meus amigos, infelizmente fala mais alto! Voltando ao tema inicial, pergunto eu: que diferenças houve entre a atuação do Fed e do BC inglês em relação ao socorro dado pelo nosso BC aos bancos Marka e Fonte Cindam em 1999?

Já me expuseram algumas diferenças sim, não vou negar. Mas no cerne da questão está o uso do dinheiro público para sanear esses bancos privados. E isso foi feito em todas essas situações. Mas por que esses bancos centrais são tão bonzinhos com bancos privados tão mal administrados? O fato não é que os BCs sejam bonzinhos.

No momento em que eles injetam dinheiro na instituição quase falida, eles não o fazem para salvar os banqueiros nem tampouco os acionistas, que perdem geralmente todo o patrimônio. O que se pretende é evitar um risco sistêmico, como já ressaltei anteriormente. Quem está sendo salvo lá nos Estados Unidos e na Inglaterra são os próprios americanos e ingleses. E quem foi salvo no Brasil em 1999 fomos nós, brasileiros.

O que seria das economias desses países se esses bancos não honrassem seus compromissos antes de irem à falência ou serem vendidos? Ninguém sabe, mas tenho certeza que o desfecho não seria dos melhores. Muito pelo contrário. Porém, desde 1999, o Ministério Público, que certamente nunca entendeu a gravidade do assunto, por ser despreparado para julgar tal questão e principalmente por ter vínculos políticos, no mínimo, discutíveis, denunciou dirigentes do banco central brasileiro, que socorreram o Marka e o Fonte Cindam.

Essas pessoas, das quais não tenho qualquer tipo de procuração para defendê-las, estão com a vida parada desde então e gastando muito dinheiro com advogados. Questão de ordem: Não existe a mínima possibilidade de um país ter uma economia forte se não dispuser de um sistema financeiro saudável. E o Brasil tem hoje um dos sistemas financeiros mais saudáveis do mundo.

O que vem permitindo que deslanchemos no crescimento econômico. Por isso, deve ser defendido e mantido, a qualquer custo, apesar das críticas e dos interesses políticos contrários.

É! Parece que ainda temos muito o que aprender para nos elevarmos ao espírito de país primeiro mundista. De fato, já somos investment grade e estamos a um passo de sermos considerados uma nação desenvolvida. Mas precisamos de mais maturidade.

Nos Estados Unidos e na Inglaterra ninguém reclamou da ajuda dada aos bancos falidos. Aqui, a política é um jogo extremamente pesado, no qual situação e oposição se engalfinham com o único propósito de chegarem ao poder para dizerem depois que estão lidando com heranças malditas.

Cazuza, um dos maiores poetas que esse país já teve – infelizmente morreu tão novo – cantou um dia: "Brasil, mostra a tua cara. Quero ver quem paga pra gente ficar assim. Brasil, qual é o teu negócio, o nome do teu sócio, confia em mim". Desde a morte do poeta, o Brasil mudou muito. No entanto, para que trilhemos o futuro promissor que nos cabe, é preciso crescer, não só economicamente, mas principalmente em maturidade. Mas parece que a autoridade máxima do nosso país, o presidente Lula, vem amadurecendo bastante nos últimos tempos, o que ajuda muito a todos os brasileiros a amadurecerem também.

Nos últimos dias, ele chegou a elogiar o Proer (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Sistema Financeiro Nacional), sobre o qual fez críticas duras no passado. E ainda receitou que esse mecanismo, criado pelo ex-presidente do BC, Gustavo Loyola, fosse usado pelo presidente George W. Bush para sanear a crise financeira lá nas terras de Tio Sam.

Só um lembrete: O Gustavo Loyola também enfrenta muitos processos judiciais até hoje, devido à criação do Proer. E muitos desses processos foram iniciados por companheiros de partido do nosso presidente. Durma com um barulho desses!
*presidente da ASB Financeira

Mercado da Comunicação
Adilson Medeiros

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