terça-feira, 4 de março de 2008

Canção passa por crivo antimachista em PE


Projeto com meninas de rua em Pernambuco reescreve letras preconceituosas para combater discriminação contra mulher - Crédito CPP / Divulgação

Recife, 03/03/2008

TIAGO MALI
da Primapagina

O brega virou moda e conquistou as adolescentes do Recife. O gênero musical é ouvido por onde se passa, principalmente nas periferias, e tem preocupado algumas entidades, que vêem nas letras um conteúdo machista, que desmerece as mulheres e reforça a discriminação de gênero. Como ninguém faz as pessoas deixarem de gostar de um tipo de música por imposição, a ONG Comunidade de Pequenos Profetas teve uma idéia melhor.

Nas oficinas promovidas pela instituição, meninas de rua ou muito pobres, de 12 a 21 anos, identificam trechos de músicas que tratam a mulher de maneira pejorativa e os recriam. Assim, a música "Piri Piri Piri", que era cantada como "Eu sou comprometida e não quero confusão/ Quem sabe escondidinho, num lugar bem escurinho/ Uma ou duas vezes a gente dá um jeitinho", virou "Eu sou tua amiga e não quero traição/ Quem sabe amiguinho, eu só quero teu carinho/Uma ou duas vezes a gente vai ao barzinho".

A noção de infidelidade da mulher também é invertida no brega "DNA". O original "Essa mina é safada e tá querendo te enganar/ Pois ela já ficou com vários amigos seus/ Agora engravidou e disse que esse filho é teu" virou "Essa mina é uma gata e tá querendo te ganhar/ Pois ela nunca ficou com nenhum amigo teu/ Agora engravidou e com certeza esse filho é teu". Em outro trecho, o que era chulo vira afeto: "Beijo na boca é coisa do passado/ A onda agora é... vem na pegada/ Pegada do papai e toma, toma, toma" ficou "Beijo na boca é coisa muito boa/ A onda agora é beijar o meu amor/ Vem, vem, vem, pois você é o meu amor".

A mudança nas letras é reflexo de mudanças na percepção. "A gente faz as meninas refletirem sobre o conteúdo das letras. Elas começam a identificar o preconceito e vão reescrevendo a canção", explica o coordenador da ONG, Demetrius Demetrio. Mas, conta ele, a entidade não busca apenas reescrever letras de música: ela quer reescrever uma vivência difícil das futuras mulheres.

Pernambuco é reconhecido pela Secretaria Especial de Políticas para a Mulher, ligada à Presidência da República, como um dos Estados com grande presença de preconceito contra as mulheres. É a quarta unidade da Federação com mais mortes femininas por assassinato. A situação chegou a despertar protestos em março de 2006, quando 500 mulheres marcharam contra o aumento das mortes femininas na região metropolitana do Recife. Naquele ano, 66 pernambucanas foram assassinadas só nos meses de janeiro e fevereiro. Preparar as meninas para lutar contra esse preconceito arraigado é um dos objetivo da Comunidade de Pequenos Profetas.

A oficina "Reinventando o Brega" é apenas uma parte do projeto Obirin L’ónan (que significa "mulheres senhoras de seus caminhos", em ioruba). A ação atende a 80 meninas em situação de risco no Recife, que recebem atendimento psicológico, comida e uma bolsa e R$ 50 por mês para permanecer no projeto.

Risco

As meninas chegam ao projeto em momento delicado. Algumas são vítimas de abuso sexual e outros tipos de agressões, dentro ou fora de casa. Há as que estão em situação de dependência de drogas ou na prostituição. Muitas vivem nas ruas. A abordagem precisa ser cautelosa para não as afugentar, diz Demetrio.

Inicialmente, o que atrai as meninas é ter um local para dormir, comer, tomar banho. As oficinas despertam uma segunda fase de convivência e de educação. Ao todo são três, de terça à sexta-feira, com duração de quatro horas por dia. Além da oficina Reinventando o Brega, há o ateliê (aberto todos os dias da semana) e a oficina Fala de Menina.

O ateliê incentiva o lado artístico das garotas, desenvolvendo trabalhos artesanais com reciclagem e ênfase na cultura africana (80% das meninas atendidas são negras). Procura-se estimular referências femininas do candomblé, por meio de orixás como Oxum (divindade ligada ao amor), Iansã (ligada à força, às mulheres guerreiras) e Iemanjá (representando a família). Objetos inspirados nessas referências são criados e comercializados em consignação por lojas de artesanato ou em feiras de arte. Parte da renda paga o material utilizado, outra parte vai para as meninas. A entidade chegou a promover um desfile com os objetos criados pelas meninas e disponibilizou o vídeo na internet (veja abaixo).

Na terceira parte do projeto privilegia-se o aspecto psicológico. Na oficina Fala de Menina, que acontece duas vezes por semana, as meninas participam de atividades como teatro, música e dança. Abre-se um espaço para que elas aprendam noções de cidadania, meio ambiente, saúde, cultura afro-brasileira, higiene e também aprendam sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. O espaço fomenta também a troca de experiências pessoais. "Dessa forma, conseguem aprender em conjunto e liberar um pouco das situações de risco pelas quais passaram", ressalta Demetrio. Para as que tiveram vivências muito dolorosas e preferem não se expor em grupo, a entidade oferece terapia e acompanhamento individual.

Um dos compromissos da Comunidade dos Pequenos Profetas é com a visita, duas vezes por semana, às casas das meninas, onde assistentes sociais conhecem o ambiente familiar de cada uma. Cada grupo de meninas permanece por um semestre na instituição. O objetivo é que, ao final, elas consigam desenvolver consciência de gênero, sair da rua, estabelecer um contato mais próximo da família.

Resultados

Uma pesquisa de percepção do trabalho, feita com pais das meninas atendidas na instituição, indica o sucesso de alguns dos objetivos perseguidos. Entre os pais entrevistados, 76% disseram que as filhas ficaram mais interessadas pelos estudos, 63% que elas passaram a se alimentar melhor, 63% que saíram das ruas e 73% que se aproximaram mais dos familiares. Já entre as meninas, 93% dizem que passaram a fazer sexo mais seguro e 73,5% que a violência em casa diminuiu.

O projeto é uma parceria entre a Comunidade dos Pequenos Profetas e o Programa dos Voluntários das Nações Unidas no Brasil, ligado ao PNUD. De 2005 até agora, já passaram pelo Obirin L'ónan 320 meninas, número que deve aumentar para 400 até setembro. Para atender as meninas, a fundação alemã Welthaus Bielefeld investiu R$ 820 mil durante os três anos.

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