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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Cultura do mal

Segundo Henry Shue “cultura da tortura” torna difícil de erradicar e caracteriza uma ameaça à democracia (foto: F. Castro)

27/02/2008
Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – “Desde os atentados de setembro de 2001, os Estados Unidos são uma nação mais fraca. Não pela ameaça terrorista, mas pelo retrocesso representado pela tolerância à tortura.” Com essa declaração, o professor emérito de Relações Internacionais da Universidade de Oxford, Henry Shue, abriu, na noite desta segunda-feira (25/2), o Seminário Internacional sobre a Tortura.
O seminário, que prossegue até quarta-feira (27/2) no auditório da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo (USP), é realizado pelo Centro de Estudos da Violência da USP, um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) da FAPESP, também conhecido como Núcleo de Estudos da Violência (NEV).
Para Shue, a tortura, que caracteriza efetivamente uma ameaça à democracia, sobrevive graças a determinados mitos. Um deles é que a prática da tortura seria uma medida excepcional, adotada em tempos de emergência.
“Mas se é temporário, quando foi seu início? Qual é a emergência? Os fascistas, os comunistas, os traficantes de drogas, o terrorismo? A justificativa é a emergência representada pelos inimigos? Mas sempre haverá novos inimigos e a emergência sempre persistirá”, questionou.
Outro mito apontado por Shue é o de que a tortura seria capaz de trazer a ordem ao intimidar o crime. “A tortura parece um método simples, rápido, que não requer treinamento. Mas não é o tipo de empreendimento que pode ser revertido naturalmente”, disse. Segundo ele, uma vez adotada por uma sociedade, tal prática gera uma cultura de tortura.
“Freqüentente as pessoas acham que a tortura é uma ação de indivíduos isolados, mas é realmente uma prática social que tem regras. As pessoas passam à frente tradições e idéias que aprendem. A tortura não é feita apenas por um grupo de indivíduos isolado, mas por uma sociedade transnacional. As agências de inteligência dialogam e nós vemos surgir uma espécie de tortura global”, disse Shue à Agência FAPESP.
Para o professor, que trabalha com o tema desde 1978, é muito improvável que sociedades tolerantes à tortura simplesmente abandonem a prática. “Por conta disso, é preciso mudar a estrutura de incentivo, oferecendo recompensas e punições. É um longo projeto e é mais fácil conseguir retrocessos que avanços”, afirmou.
O norte-americano cita a educação e o debate internacional entre especialistas como pontos fudamentais para erradicar a tortura. “A tortura parece necessária para alguns. Precisaríamos de um tipo de educação para os direitos humanos. E precisamos de discussão. Nos Estados Unidos, até o governo de George W. Bush, éramos bastante arrogantes a esse respeito, achando que a tortura não existia no país. Mas ela já era usada quando Jimmy Carter criticava a tortura no Brasil, Argentina e Chile. Ou seja, temos um longo caminho de estudos pela frente”, afirmou.
Assunto pouco estudado

Para o sociólogo Sérgio Adorno, coordenador do NEV, a discussão é importante porque o tema ainda é pouco estudado no Brasil. “Entre estudiosos que se ocuparam da questão da violência durante os regimes ditatoriais, há uma reflexão mais elaborada a respeito do papel da tortura nos interrogatórios. Mas, de modo geral, é um tema muito mais tratado sob o ponto de vista da denúncia que de uma reflexão densa sobre sua funcionalidade”, disse Adorno à Agência FAPESP.
No seminário, disse o sociólogo, o NEV optou pela intensa contribuição internacional. “Fizemos um levantamento da literatura especializada e verificamos quem eram os pesquisadores que tinham uma contribuição para tornar a reflexão brasileira mais densa nesse tema, que é delicado, que causa desconforto, mas que precisa de discussão. É impossível falar em democracia se não se falar em respeito à legalidade e às convenções internacionais”, destacou.
Entre os participantes da mesa de abertura do evento, o presidente da FAPESP, Celso Lafer, destacou a pertinência do tema no ano em que se comemoram 20 anos da Constituição Federal – que garantiu pela primeira vez instrumentos legais para o combate à tortura – e 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
"Graças à Declaração Universal, que traçou os rumos do direito internacional, esses temas terão um debate global. É um tema que está na ordem do dia", disse Lafer. Citando o italiano Norberto Bobbio, Lafer lembrou que os direitos humanos representam a passagem do dever do súdito ao direito do cidadão.
"O desdobramento dessa afirmação é a idéia de que o ser humano, segundo Immanuel Kant, é um fim e não um meio. E não pode ser instrumentalizado, inclusive da perspectiva da atuação da tortura para ação do Estado", disse. A civilidade, segundo Lafer, é medida pela negação e pela crítica à tortura. "Hannah Arendt disse que a violência, que hoje se multiplica, destrói o poder e nunca pode criar poder. Portanto, para lidar com os problemas da nossa sociedade e seus desafios é preciso superar a violência."
Também presente à mesa de abertura, o secretário de Justiça de São Paulo, Luiz Antônio Guimarães Marrey, concordou que se trata de um momento oportuno para reflexão. "A Constituição de 1988 trouxe a proibição da tortura e sua classificação como crime inafiançável, evidenciando que ela não pode jamais ser uma política de Estado", afirmou.
No entanto, resquícios obscurantistas permitem que a prática sobreviva, segundo Marrey. "A tortura ainda é vista por muitos como um 'mal necessário'. Vemos, entre a população em geral, um alto índice de desinformação e uma preocupante disponibilidade para abrir mão das garantias civis e do estado de direito. Sair à luz à vista de todos é a única forma de erradicar esse mal", afirmou.
"Por mais que tenhamos nos afastado das cavernas com os direitos humanos, fomos incapazes de superar a tortura", disse o presidente da Comissão Municipal de Direitos Humanos, José Gregori. Ele lembrou que, graças ao esforço da sociedade civil, por meio das comissões de direitos humanos, o Brasil conseguiu banir a tortura política.
"Depois disso estabelecemos uma figura jurídica que pune a tortura, o que não existia até a década de 1990. O Brasil está hoje equipado do ponto de vista legal. Mas se é improvável a tortura política, ainda temos que conviver com a tortura policial. Mais do que leis, precisamos agora investir na formação da sociedade brasileira, para que a tortura seja repudiada."
Confira também no Boletim daAgência Fapesp de hoje:

Empreendedorismo e conservação florestal
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Mais sono, menos obesidade
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Escolas de qualquer cidade do país podem agendar sessões remotas para observação do espaço pela internet, como se estivessem diante do telescópio do instituto em São José dos Campos
Fonte: Agência Fapesp

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Seminário Internacional sobre a Tortura

O Seminário Internacional sobre a Tortura, que ocorrerá nos dias 25, 26 e 27 de Fevereiro de 2008, tem por objetivo promover uma ampla discussão sobre a tortura e seus mitos. Dois fatores simultâneos motivam a realização deste seminário: 1) o retorno da discussão sobre a "eficácia" da tortura, ainda que em determinadas condições como, por exemplo, a "guerra contra o terror", onde diante de um perigo iminente a tortura seria justificada para extrair informações que poderiam evitar danos maiores (argumento da "ticking bomb"); 2) a sobrevivência da tortura, mesmo vinte anos após o retorno à democracia, no interior das instituições brasileiras que deveriam garantir o cumprimento da lei. Destaca-se ainda aqui que, na atual democracia brasileira, a tortura não apenas persiste, mas coexiste juntamente com inúmeras outras violações aos direitos humanos.

A possibilidade da democracia se consolidar diante de tantas violações tem sido o foco do programa de pesquisa do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP) e, neste contexto, a recente discussão sobre a tortura parece ter primordial importância para as discussões a respeito do futuro da democracia e dos direitos da pessoa humana. Ainda mais, quando se considera que a condenação, quase universal do uso da tortura passou, após os atentados de 11 de setembro, a ser questionada e o que parecia ter sido apagado do discurso público, resultado de todos os acordos, convenções e tratados assumidos pelas principais democracias durante os últimos séculos, passou, de algum modo, a suscitar dúvidas a respeito de sua aplicação universal. Além disso, este debate, sem dúvida nenhuma, também causa impacto no plano local, principalmente no interior das instituições que resistiram à erradicação de tais práticas que, freqüentemente, ainda são aqui aplicadas em "pessoas consideradas suspeitas".

É neste contexto que os pesquisadores do NEV reconhecem que é hora de promover um amplo debate intelectual sobre os mitos que alimentam e sustentam a prática da tortura, não somente em contextos brasileiros, mas também nas democracias sob a ameaça de ataques terroristas. Para promover esta discussão, este será o primeiro [1] de uma série de dois seminários com os seguintes propósitos:

1 – promover um debate esclarecido sobre a tortura e o impacto que a diminuição das restrições contra a mesma possam ter sobre a democracia;

2 – promover trocas entre instituições acadêmicas / pesquisadores nacionais e internacionais;

3 – encorajar as redes de contato das instituições acadêmicas Brasileiras a fim informar mais prontamente o debate público sobre estes assuntos.


[1] O Segundo seminário "A Prevenção da Tortura e Outras Formas de Violência: Agindo sobre as Causas Econômicas, Sociais e Culturais", será realizado juntamente com a "World Organisation Against Torture", previsto para o segundo semestre de 2008.

O Seminário acontecerá na Cidade Universitária da Universidade de São Paulo.

Entrada Franca*

PROGRAMA

25/02 – Segunda-feira - Sessão de Abertura

19:00


Palestra de Abertura


26/02 – Terça-feira

9:00 às 12:30

Paniel I – Medo e Tortura: Ética, valores e crueldade nos dias atuais

Dinah PoKempner - Human Rights Watch

Jean Maria Arrigo - American Psychological Association

David Sussman - University of Illinois at Urbana-Champaign

Moderador: Paulo de Mesquita Neto


14:00 às 17:30

Paniel II – Tortura e a guerra contra o terror: o mundo depois de 11 de Setembro

David Luban - Georgetown University

Henry Shue - University of Oxford

Fritz Allhoff - Western Michigan University


William Scheuerman - Indiana University

Moderador: Nancy Cardia


27/02 – Quarta-feira

9:00 às 12:30

Paniel III - Tortura e justiça criminal

Roy King - Institute of Criminology at the University of Cambridge

David DeBatto - retired U.S. Army Counterintelligence Special Agent

David Rodin - Diretor do departamento de Pesquisa de Uehiro Centre for Practical Ehtics da Oxford University

Moderador: Sérgio Adorno


14:00 às 17:30

Paniel IV – O legado da tortura para a democracia

Martha Huggins - Tulane University

Henrik Ronsbo - Rehabilitation and Research Centre for Torture Victims

Jessica Wolfendale - University of Melbourne

Moderador: Emílio Delasoppa


Sua presença é muito esperada. Seria uma grande satisfação tê-lo em nossas apresentações. Em caso de dúvidas, favor encaminhar sua pergunta para:

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