domingo, 2 de março de 2008

Livro-Livre

Centro Cultural Banco do Nordeste-Fortaleza abre exposição “Livro Livre”, organizada por Alexandre Veras, na próxima terça-feira, 4, às 19 horas


Abertura da exposição: dia 04 de março, terça-feira, às 19 horas.
Período: 04 de março a 27 de abril de 2008. Entrada franca.
Organizador: Alexandre Veras.
Artistas: Grupo Alumbramento (Thais Alberto e Ivo Lopes).
Local: Centro Cultural Banco do Nordeste-Fortaleza (rua Floriano Peixoto, 941 – 2º andar – Centro – fone: (85) 3464.3108).


Veja vídeo sobre o projeto Livro Livre no You Tube: http://youtube.com/watch?v=6OBYC_eruBs.


Produzido pelo grupo Alumbramento, o vídeo tem trilha sonora de Fernando Catatau, da banda Cidadão Instigado (“Lá fora tem / um lugar que me faz bem / e eu / vou lá”).


Livro livre – processo de criação da exposição
O Livro Livre 001 foi abandonado na feira de Messejana.
O número 039 fez uma viagem de trem, partindo do Mondubim.
O 021 ficou nas novas ruínas da ponte Praia do Futuro – Sabiaguaba.
Uma charrete passa em frente a um ponto de ônibus em Floresta, onde também podemos ver o livro 033.
Enquanto isso, o 076 é discretamente depositado em um balneário na Granja Portugal.
Agora, depois de 100 dias, esperamos que esses e os outros 95 livros que foram espalhados por toda a Fortaleza sejam reunidos na abertura da exposição Livro Livre.

O projeto Livro Livre propõe uma forma de comunicação poética, coletiva e anônima que busca envolver as pessoas em uma atmosfera misteriosa, lúdica, brincando com a curiosidade e convidando-as a participar de algo que está além do controle de suas vidas.
Trata-se de um jogo que envolve pessoas e coisas que se deseja dizer. Um jogo que só acontece se alguém acredita, pois propõe uma reflexão acerca da crença no destino, nas coincidências banais e nas possibilidades de se conhecer pessoas com as quais se divide o espaço e o tempo.

Primeira parte
Espalhar, por diversos locais da cidade, cem livros de cem páginas brancas, confeccionados artesanalmente, encadernados em capa dura branca e numerados de um a cem, em cuja primeira página será escrito o seguinte texto:

Este é um livro livre que deve viajar por muitos caminhos. Faz parte de um jogo que envolve pessoas e o que elas têm a dizer. Ele foi parar em suas mãos simplesmente pelo acaso e você agora está sendo convidado a jogar.

Regra 1: você decide se quer jogar ou não. Caso não queira brincar abandone este livro no mesmo lugar onde o encontrou e continue a viver sua vida como se nada tivesse acontecido. Se deseja seguir adiante, passe à segunda regra do jogo.

Regra 2: você pode tudo. Aqui você deve escrever algo que acha importante dizer ao mundo, pode ser uma estória, real ou inventada, uma poesia, uma canção, um desenho, fotografia etc.
O importante é que traduza a sua verdade ou o seu sentimento com relação ao mundo, à cidade, às pessoas ou a você mesmo.

Regra 3: após ter feito a sua parte você deve abandonar este livro em algum lugar onde ele possa ser encontrado por outra pessoa para que ela possa ler e decidir se vai entrar na brincadeira ou não, contribuindo com a obra. Pronto, a partir de agora uma parte de você vai circular e fazer parte da vida de outras pessoas. Por favor não guarde este livro somente para si, ele deve passar pelas mãos de muitas outras pessoas para que possa ser lido e preenchido com as mais criativas linhas. Você é o responsável pelo destino dessas estórias e agora peço-lhe que as torne livres novamente.

Regra 4: no dia 04 de março do ano de 2008, esse livro deverá ser entregue na rua Floriano Peixoto nº 941, Centro, Fortaleza – CE, a partir das 10 horas da manhã. Nesse dia, quem estiver com o livro nas mãos, por favor leve-o ao local na hora marcada para que todos que contribuíram com o seu destino possam contemplá-lo finalizando o jogo e permitindo que os livros completem seu ciclo.

Quem começa
Escolheremos cem pessoas diferentes para escrever as primeiras páginas no intuito de estimular os que encontrarão os livros depois, visto que, para muitos, saber que alguém já entrou na brincadeira antes é, na verdade, um estímulo fundamental e também por que a diversidade dessas pessoas também irá contribuir para que eles vejam que vale expressar o que a imaginação desejar.
Entre eles:
gra, euzébio, fred, ná filho, enrico, tio ali, miguel, armando, ivo, thais, salomão, maurizio, zé albano, bia furtado, rubia, zá araujo, glaucia, barbalho, solon, eduardo jorge, uirá, mimi, valeria, helano, akel, andré dias, danilo, luis, ricardo, livia pacoty, regina, themis, eri, ythallo, jaqueline, laia, narcelio, david da paz, naná, marisol, luciana, paulo, chico, umberto, wan, lia, abreu, iara, lucinha, pedrinho, guto, thaís, marquinho, junã, morena cristal, lívia, pedro domingues, vaikunta, ticiano, ramon…

A cidade
Os livros serão deixados em locais específicos da cidade seguindo uma cartografia criada para possibilitar que eles circulem por lugares diferentes. A idéia é desenhar uma espiral sobre o mapa de Fortaleza, começando pela periferia e terminando no centro da cidade, e marcar os pontos, seguindo esse desenho, para que esses livros sejam deixados na ordem numérica crescente terminando com o livro de número cem que estará no Centro Cultural Banco do Nordeste a partir da data de abertura da exposição para que os visitantes também participem da obra.

O vídeo
Todo o processo dos livros será registrado em vídeo, fotografias, e captação de áudio, desde a confecção, o desenho sobre o mapa, o acompanhamento das pessoas convidadas a escrever as primeiras estórias, os momentos de abandono dos livros nos respectivos lugares, bem como todos os acontecimentos decorrentes. O resultado será um vídeo livremente baseado nos quatro meses do processo Livro Livre e será parte integrante da exposição.

A exposição
Ocupará dois salões da galeria, uma sala escura com uma parede branca, onde será projetado o vídeo, e na outra sala, bem iluminada, ficará um sofá branco ou cadeiras brancas e a estante branca contendo o livro de nº 100 com as páginas em branco para que os visitantes possam escrever e onde serão colocados os outros livros que chegarem a partir do dia da abertura.

Texto de Alexandre Veras, organizador da exposição
Abrir o mapa da cidade, conhecer seus nomes, medir distâncias, escolher pontos, juntar os cúmplices, dividir equipes, definir estratégias, traçar uma rede, marcar datas, concentrar as forças e só aí, lançar o corpo por entre a cidade, ir de um ponto a outro atualizando as linhas de estratégia, num mesmo movimento, invisível, com gestos mínimos. O artista como cartógrafo.
Cem livros brancos, com cem páginas em branco, distribuídos em cem pontos da cidade, por dez pessoas divididas em cinco equipes. Para cada movimento um pequeno registro, cem vídeos de um minuto, em cada um, um livro deixado. Em cada livro uma mensagem, continue o livro, escreva, desenhe, deixe algo na superfície branca e depois deixe o livro, escolha um lugar e abandone-o.
Continue o movimento do livro. Cem dias se passarão e cem pessoas poderão encontrá-lo e depois abandoná-lo novamente. Dez mil encontros e desencontros, dos quais só saberemos pelos vestígios deixados nas páginas em branco. Para o último encontro, um pedido, abandone-o neste endereço, não se diz o que é o lugar, apenas uma rua, um número e uma data. O artista como sismógrafo.
Esse é o movimento do livro-livre. Mas há outro. O movimento dos cúmplices. O que fazer nesses cem dias? Esperar? É preciso continuar o movimento do livro numa outra série, criar um duplo do movimento das páginas preenchidas dia-a-dia. Para cada dia passado, um minuto de vídeo. Dez pessoas, produzindo a cada dia um vídeo de um minuto, durante cem dias. Dez vídeos de cem minutos. O artista como arquivista.
Há algo de profundamente romântico nesse gesto. Arremessar algo ao mundo e esperar pelo eco, provocar uma variação, arriscar perder-se nessa variação, apostar que um gesto mínimo pode alterar a ordem do mundo, acreditar “que a vida é a arte dos encontros, embora haja tantos desencontros na vida”. Mas há também o prazer de um puro gesto e o encantamento com a possibilidade desse gesto, um arremesso.
Sim, é preciso atravessar a cidade, distribuir os pontos. E de cada ponto achar a ponte para o arremesso. Mas qual o sentido do arremesso? Arremesso em direção ao “outro”, porque o outro é o próprio sentido desse arremesso. Um arremesso que começa sempre antes e só finda depois, uma prolongação do gesto, uma garrafa ao mar, um livro livre cuja única mensagem é o convite a um novo arremesso.
Arremesso acrescido de uma nova dobra, pois todo livro é um livro de dobras que se desdobram em cada arremesso-livro. Um livro-arremesso que se desdobra em duas linhas. Uma que segue sempre e não sabemos nunca se volta, outra que já segue voltando, como se cada arremesso comportasse dois sentidos. Um que vai em direção ao “outro” e outro que volta em direção a quem fica.
O arremesso aciona duas séries. A primeira, uma série louca, imprevisível, regida por Aion, senhor das intensidades e das bifurcações; a outra, com as marcas de Cronos, senhor das distribuições temporais, deixadas como vestígios em cada vídeo realizado por cada um do grupo, dia-a-dia, durante cem dias.
Da primeira série, que segue as derivas do livro, talvez nunca haja retorno, e talvez seja melhor assim, pois pesará, sempre sobre quem volta, a dúvida se a viagem foi longe o suficiente, chegando àquele ponto em que voltar é não ter arriscado ir mais. Aqui a perversão seria achar que o trabalho só se resolve se os livros voltarem.
Cada livro arremessado rompe o Fio de Ariadne, e quando se rompe o fio, perder-se volta a ser a razão do labirinto. Teseu-livro não mata mais o Minotauro e sai glorioso, mas desaparece como o capitão Ahab, que nunca pôde evitar ir mais além, e ser devorado por Moby Dick, a imensa baleia branca.
A questão aqui é se teremos uma narrativa possível a partir dessa viagem de onde não há regresso. Esse foi sempre o dilema da narrativa: quem poderá narrar quando a viagem é sem volta. A narrativa da própria experiência sempre estará sobre suspeita, pois quem volta para narrar talvez não tenha ido o suficiente, mas como converter a experiência em narrativa se não há volta?
Da segunda série, ou dos que ficaram no cais, é sempre possível dizer que a viagem nunca é apenas dos que partiram, pois quem fica, continua, e quem aposta no arremesso, aposta na volta do arremesso sobre si, como se a linha que volta nos levasse a continuar a história. A exposição que encontramos aqui traz a produção realizada nas variações dessa segunda série. Livro-dispositivo, que aciona linhas de fuga, de ruptura, de expressão.
No entanto há um convite que marca o início desta viagem, uma data marcada para a volta. Um desejo de ter nas mãos o livro-narrativa com os vestígios da viagem. Um jogo com o acaso, um desejo de aproximar as séries. Esta exposição celebra isso: o encontro com o imponderável, a alegria de inventar relações, de inventar a si e ao mundo. A vida como Livro Livre.
- Não deixe a peteca cair! Diz o livro-arremesso-dobra-vestígio-dispositivo-livre.


Luciano Sá

assessor de imprensa do Centro Cultural Banco do Nordeste

(85) 3464.3196 / 8736.9232 – lucianoms@bnb.gov.br

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