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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

O desafio de US$ 1 bilhão

Verbas mundiais para combate a malária aumentam dez vezes na última década, graças a fundações e doadores, mas, segundo o epidemiologista Mark Grabowsky, coordenação, planejamento e monitoramento são fundamentais para conquista de resultados (foto: OMS

28/02/2008
Agência FAPESP – Dos inúmeros problemas das regiões mais pobres do mundo, poucos têm a extensão e a gravidade da malária. Os números são eloqüentes: uma criança morre da doença a cada 30 segundos; por ano são mais de 1 milhão de mortos e mais de 500 milhões de novos casos, a maior parte na África.
Estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS) alerta que a malária causa uma perda média de 1,3% no crescimento econômico anual em países com transmissão intensa. No Brasil, foram registrados 545.696 casos em 2006, com a Amazônia Legal respondendo por 99,7% do total. A maior incidência (73,4%) é da espécie Plasmodium vivax, uma das três que causam a doença por aqui.
Não há vacina para a malária e os países mais afetados não contam com sistemas de saúde adequados ou estratégias eficazes para controle da epidemia. A falta de dinheiro sempre foi o principal problema, mas isso é algo que tem mudado rapidamente.
Há dez anos, os recursos disponíveis para enfrentar a doença chegavam a US$ 100 milhões. Este ano, o total poderá ultrapassar US$ 1 bilhão, graças a iniciativas como a do Fundo Global de Combate à Aids, Tuberculose e Malária e apoio financeiro das mais diversas instituições, como o Banco Mundial, a Fundação Bill e Melinda Gates, o Comitê Olímpico Internacional e até mesmo o time de futebol espanhol Real Madrid, que doou dinheiro arrecadado em amistosos.
Os novos fundos serão suficientes para melhorar o cenário? A questão é o assunto de capa da edição de 28 de fevereiro da revista Nature, que destaca que finalmente o mundo passa a contar com verba para o controle da malária suficiente para começar a promover conquistas de peso e extensão na luta contra a doença.
Mas, segundo o epidemiologista norte-americano Mark Grabowsky, coordenador das iniciativas contra a doença do Fundo Global de Combate à Aids, Tuberculose e Malária, junto com a oportunidade única vem o aumento na responsabilidade de gastar bem o dinheiro.
Em artigo na revista, Grabowsky, que também é dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, aponta medidas para o bom uso dos recursos, que incluem a integração de programas de prevenção com outras iniciativas em saúde, a melhoria na distribuição de tratamentos existentes e, especialmente, o acompanhamento das abordagens empregadas e de seus efeitos.
Para ele, distribuir redes antimosquito para camas, uma das mais eficazes formas de prevenir a doença, é importante, mas sem o monitoramento freqüente nos locais afetados a estratégia será insuficiente.
Segundo Grabowsky, caso não se aumentem os esforços e gastos destinados ao controle das medidas, o “esforço de US$ 1 bilhão contra a malária se tornará um vôo às cegas”. Ou seja, algo muito distante do objetivo ambicioso das entidades responsáveis pelos financiamentos de cortar o número de mortos pela metade até 2010.
“Fundos adequados para o controle da malária são um primeiro passo muito importante, mas coordenação, planejamento e apoio operacional são fundamentais para atingir os objetivos delineados”, disse. Para o epidemiologista, a questão é simples: a maioria dos países atingidos não conta atualmente com condições de coordenar as iniciativas que serão necessárias.
Grabowsky é incisivo: diferentemente de declarações como as de Bill Gates a respeito da erradicação da doença, o problema continuará presente por muito tempo. “Erradicação é um projeto de décadas que exigirá novas ferramentas, inclusive uma vacina eficiente”, afirmou.
A Nature traz dois outros artigos sobre a malária. O primeiro descreve a longa luta para tentar obter a primeira vacina contra a doença, seja em laboratórios ou em testes clínicos de larga escala. O segundo relata os caçadores de mosquito na Zâmbia, de modo a tentar entender a dinâmica da doença e chegar a soluções para reduzir o impacto do problema no continente africano.
O artigo The billion-dollar malaria moment, de Mark Grabowsky, pode ser lido em breve por assinantes da Nature em www.nature.com.
Leia também no Boletim da Agência Fapesp hoje:

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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Gates destina US$ 19 mi a projeto na África


Recurso será usado para aquisição de equipamento multiuso que facilita atividades produtivas das mulheres em locais sem eletricidade - Foto: Divulgação / PNUMA

Dacar, 26/02/2008
da PrimaPagina

A Fundação Bill & Melinda Gates destinou US$ 19 milhões a um programa que fornece energia em zonas rurais no oeste da África a partir de um mecanismo de baixo custo, com o objetivo de facilitar e aumentar a produtividade do trabalho das mulheres. O projeto, que visa a redução da pobreza, tem apoio e supervisão do PNUD.

Os recursos, que serão liberados ao longo de quatro anos, devem ajudar a estabelecer 600 novos empreendimentos em Senegal, Mali e Burkina Fasso — os três com IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) abaixo de 0,500, faixa em que o PNUD classifica os países como de baixo desenvolvimento humano. A peça central do programa é uma plataforma multifuncional (foto) movida a diesel, à qual pode ser acoplada uma série de equipamentos, incluindo moedor de cereais, descascadores, carregadores de baterias e equipamentos para marcenaria e carpintaria. Pelo menos 24 dessas máquinas serão movidas a biocombustível.

O acesso à eletricidade é bastante restrito nesses países. Em Burkina Fasso, apenas 7% da população é servida por energia elétrica, segundo dados da Agência Internacional de Energia publicados no Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008. No Senegal, a porcentagem é maior: 33%. Não há dados para o Mali.

Como conseqüência, uma atividade relativamente simples em alguns países, a preparação do alimento, transforma-se em um laborioso desafio para as mulheres. Elas perdem até seis horas por dia coletando lenha, água potável, descascando e moendo grãos, o que as impede de realizar atividades remuneradas. As garotas têm rendimento escolar ruim devido à baixa assiduidade nas aulas, e às vezes abandonam os estudos para ajudar suas mães.

As plataformas multifuncionais transformam atividades domésticas como descascar e moer sorgo, milho e outros grãos — feitas normalmente com equipamentos rudimentares — em um trabalho economicamente rentável. Elas também podem gerar energia elétrica, refrigerar e bombear água, o que ajuda a fornecer água limpa às comunidades.

"Investindo nessas fontes de energia simples para comunidades rurais, as mulheres não precisarão mais despender a maior parte de seu tempo moendo grãos e bombeando água", afirmou o administrador internacional do PNUD, Kemal Dervis, durante anúncio da iniciativa em Dacar, no Senegal. "Elas terão mais horas no dia para desenvolver atividades lucrativas que poderiam impulsionar sua produtividade, permitindo-as vender produtos de melhor qualidade e aumentando seus rendimentos usando tecnologia efetiva e de baixo custo."

Os benefícios das plataformas multifuncionais já foram atestados no oeste da África, onde o processamento de nozes de carité para a fabricação de manteiga é uma atividade econômica comum. Em Mali, por exemplo, esmagar manualmente dez quilos da noz rende 3,5 quilos de manteiga em oito horas. Com a plataforma, a mesma quantidade do grão rende 4,5 quilos em metade do tempo.


Fonte: PNUD

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Políticas neoliberais freiam ODM na África

Estudo diz que metas de inflação baixas e esforço para redução de déficit fiscal tornam mais difícil região cumprir Objetivos do Milênio - Crédito: UN Photo / Divulgação

Brasília, 21/02/2008

TIAGO MALI
da PrimaPagina

As políticas neoliberais travam o crescimento econômico da África Subsaariana e fazem com que ele fique aquém do necessário para a região atingir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), afirma um estudo do Centro Internacional de Pobreza , uma instituição de pesquisa do PNUD, resultado de uma parceira com o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).
A pesquisa As Implicações Macroeconômicas das Estratégias para os ODMs na África Subsaariana conclui que a estratégia de manter déficits fiscais reduzidos, adotar metas de inflação abaixo de 5% e deixar o câmbio flutuar seguindo regras de mercado prejudica o desenvolvimento daqueles países. Para o professor John Weeks e o economista Terry McKinley, autores do texto, a região desperdiça um momento favorável de aquecimento da economia mundial, que poderia impulsionar mais melhorias na vida da população.
“A prevalência do modelo econômico neoliberal se baseia em forças de mercado para conduzir o desenvolvimento. Isso requer políticas fiscais preocupadas com pequenos déficits, políticas monetárias atreladas a baixas taxas de inflação e políticas de câmbio comprometidas com a flexibilidade total. Esse tipo de política dificilmente acelera o crescimento ou tem impacto suficiente para reduzir pela metade a pobreza extrema até 2015 (ou seja, atingir o primeiro ODM) e sustentar o alcance dos outros Objetivos de Desenvolvimento do Milênio”, diz o texto.
A análise, que compreende o período de 1985 a 2005, dividiu a África Subsaariana em três grupos: dez países que estão em situação de conflito; sete que não estão em conflito e têm renda média e 24 que não estão em conflito e têm renda baixa. Segundo o estudo, a recuperação dos que saíram de situação de guerra no meio dos anos 90 gerou uma falsa impressão de melhoria generalizada. O que a pesquisa constatou, entretanto, foi que a renda per capita piorou nos países de renda média e teve melhora discreta nos de baixa renda (0,2 % ao ano na década de 90 e 1,2% entre 2000 e 2005). Números insuficientes, de acordo com a pesquisa, cumprir os Objetivos do Milênio.
Os autores criticam o que chamam de “obsessão por baixos déficits fiscais”, que não seriam necessários. Analisando dados do FMI (Fundo Monetário Internacional) sobre 30 países da África Subsaariana, a pesquisa mostra que em nenhum momento mais de um quarto das nações teve déficit fiscal expressivo (mais de 5% do PIB) no período de 1985 a 2005. Nesse sentido, uma estratégia pesada de controle dos gastos não se justificaria, argumenta o texto.
Política insustentável
O documento expressa perplexidade com as políticas adotadas. “A renda de todos cai quando o ganho do setor privado diminui, mas os investimentos sociais precisam crescer para compensar as perdas no rendimento das pessoas. Insistir na inflexibilidade e manter metas de déficits baixos [gastar menos quando a arrecadação cai] só faz com que tudo continue piorando”, afirma.
A pesquisa destaca que não será possível atingir os Objetivos do Milênio sem extenso financiamento público. Ao mesmo tempo, recomenda que as despesas internas devem ser concentradas no desenvolvimento, em vez de pagar dívida externa e tentar sanar contas.
Outro fator considerado preocupante pelos autores é a falta de regulação do câmbio. A moeda de alguns países da região se valorizou nos últimos anos por conta da alta do petróleo. Isso acaba prejudicando a exportação de bens não-primários, que ficam menos competitivos no mercado internacional, e enfraquece o processo de industrialização, ainda incipiente em boa parte dos países.
A política de controle da inflação nessas nações também traz prejuízos, segundo a pesquisa. Desde 1997, 80% dos países analisados da África Subsaariana mantinham taxas de juros reais superiores a 6%. Em razão disso, afirmam o autores, quatro de cada cinco nações na região tinham taxas de juros com grande probabilidade de afetar o próprio crescimento econômico e o desenvolvimento humano.
Soluções
“Se a política monetária for libertada do aperto das metas de inflação, isso pode contribuir para acelerar o crescimento e o desenvolvimento humano necessário para atingir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio”, escrevem Weeks e McKinley. Isto, sustentam, melhoraria os fundamentos para expansão de uma política fiscal, o que traria mais dinheiro para que o governo aplique em desenvolvimento.
Outros “antídotos” contra a estagnação do crescimento citados no relatório são controlar o câmbio para manter os preços estáveis e diminuir as taxas de juro para patamares que possibilitem um maior crescimento.
Fonte: PNUD