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sábado, 23 de fevereiro de 2008

Renda e educação dos pais pesam mais do que cor em desigualdade racial na escola

Estudo afirma que, no acesso à educação, a origem social influencia mais do que a raça, embora peso da discriminação seja relevante - Foto: Agência Brasil / Elza Fiuza


Brasília, 22/02/2008



TIAGO MALI
da PrimaPagina

A desigualdade de acesso à educação entre negros e brancos no Brasil se deve mais à origem social do que à discriminação de cor. Entretanto, o preconceito também influencia a diferença. Essa é uma das conclusões de um estudo feito pelo Centro de Internacional de Pobreza, uma instituição de pesquisa do PNUD, resultado de parceria com o IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas).
O texto, intitulado Toda a Desigualdade Socioeconômica entre os Grupos Raciais no Brasil é causada por Discriminação Racial?, do economista Rafael Guerreiro Osório, faz uma análise detalhada da evolução educacional dos brasileiros nascidos de 1973 a 1977, tendo como base diferentes edições da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, feita pelo IBGE).
O economista acompanhou, por meio das amostras de 1982, 1987, 1992, 1996 e 2005, o acesso da população à educação. Ele dividiu os grupos de acordo com a instrução do chefe da família, a renda familiar e a cor da pele e verificou, por exemplo, a porcentagem de crianças nascidas entre 1973 e 1977 que chegaram aos estavam alfabetizadas em 1982, estavam no ensino médio em 1992 e na universidade em 1996. Para evitar distorções, o estudo controlou fatores que poderiam influenciar o resultado, como região, sexo e idade. A partir dos dados, foi criado um modelo estatístico pelo qual é possível estimar a influência de cada uma das variáveis (educação, renda e cor da pele) no resultado.
Nesse modelo, os fatores que influenciaram o sucesso educacional (chegar ao nível de escolarização indicado para a idade) são os socioeconômicos, mais do que a cor da pele. Por exemplo, a probabilidade de uma criança de 7 anos estar alfabetizada em 1982 cresce quando a educação do chefe de família e a renda da casa são maiores, independentemente de o aluno ser branco, preto ou pardo. A região também influencia, e a probabilidade cresce na seguinte ordem: Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Desse modo, a criança nascida na região Norte teria menos chances de estar alfabetizada, e a nascida no Sul, mais chances. Esse padrão de influência da educação dos pais e da renda se repete em todos os níveis analisados — ensino fundamental, ensino médio e superior.
O fato de a região e de a origem social serem mais relevantes que a discriminação por cor traz uma conclusão ruim, na opinião do autor do estudo. "Isso só mostra que o Brasil é um país com baixa mobilidade social e que o peso da origem social é grande. É muito difícil para alguém com renda baixa e cujos pais não tiveram acesso à educação conseguir atingir um nível educacional alto", afirma Osório. Para o especialista, isso pode explicar a manutenção dos negros entre os segmentos de renda mais baixos da sociedade e a perpetuação de uma desigualdade racial que vem dos tempos da escravidão.
Influência importante
Uma parte central do estudo analisa como se comporta a influência da discriminação por cor. A constatação de que o fato de ser negro faz, sim, diferença é sustentada pela observação de que pretos e pardos levam desvantagem em todos os indicadores de acesso à educação, mesmo quando a renda e a escolarização dos pais são iguais às dos brancos. Por exemplo, entre um negro e um branco nascidos entre 1973 e 1977 na região Norte, provenientes de famílias com o mesmo nível de renda e com os pais com o mesmo grau de instrução, eram maiores estatisticamente as chances de o branco estar na universidade em 1996.
Essa diferença em relação à cor é encontrada em maior ou menor escala em praticamente todos os cenários analisados. "A grande novidade que trazemos é conseguir medir onde a discriminação exerce maior influência para atingir a educação. E, nesse sentido, são justamente os negros de classe média que sofreram mais os efeitos negativos da discriminação na geração analisada", afirma Osório.
Para esse segmento da sociedade, ser negro estava relacionado a menor probabilidade de ter entrado na universidade em 1996. O estudo identificou um padrão: quanto maior a disputa por acesso ao ensino (poucas vagas e muitos em condição de concorrer a elas), mais a cor da pele influencia o sucesso educacional — sempre com desvantagem para pretos e pardos.
Nos domicílios de menor renda e menor instrução, a cor da pele faz pouca diferença na probabilidade de uma criança nascida entre 1973 e 1977 ter chegado à faculdade em 1996 — nessas condições, a chance é pequena tanto para pretos ou pardos quanto para brancos. Na outra ponta, quando negros e brancos estão entre o 1% mais rico da população, a influência da cor no acesso à universidade também é pequena: a probabilidade é alta para os dois grupos.
É, portanto, na camada intermediária que a cor pesa mais. Para uma pessoa que estivesse entre os 20% mais ricos do Brasil, nascida no Nordeste em uma família cujo chefe estudou até a quarta série do ensino fundamental, a influência da cor da pele no acesso à universidade é o dobro de uma pessoa com as mesmas características, mas que estivesse entre os mais pobres.
Do mesmo modo, quando havia mais disputa pelas classes de alfabetização, em 1982, ser branco ou negro fazia diferença — era menor a chance de um preto ou pardo estar alfabetizado. Já em 2005, a influência da cor da pele era pequena. O que aconteceu entre os dois períodos? O acesso à alfabetização foi universalizado: quase todos têm oportunidade de atingir esse nível educacional na idade certa. Isso significa, portanto, que, quanto maior o acesso à educação, menor os efeitos da discriminação por cor.
Cotas
Rafael Osório aproveita a conclusão para recuperar um assunto polêmico, não abordado no estudo: "Isso significa que universalizar a educação é melhor do que a política de cotas? Depende da urgência com que o Brasil quer tratar a questão. Dar oportunidade a todos para chegar à universidade realmente acabaria com a desigualdade racial nesse caso. Mas precisamos ver até onde isso é possível de ser feito e a urgência das pessoas que estão na idade de estudar. As cotas podem ser um bom instrumento para corrigir com rapidez essa desigualdade racial, motivada, entre outros motivos, também pela discriminação", afirma.


Leia o estudo
Toda a Desigualdade Socioeconômica entre os Grupos Raciais no Brasil é causada por Discriminação Racial?

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Ambulante vê racismo no Carnaval baiano


Pesquisa da prefeitura de Salvador indica que 95% dos trabalhadores informais dizem que há preconceito racial durante as festividades - Crédito: Secretaria Municipal da Reparação / Divulgação

Salvador, 19/02/2008
OSMAR SOARES DE CAMPOS
da PrimaPagina

Uma pesquisa realizada entre ambulantes e catadores de latinhas que trabalham no Carnaval de Salvador revela que 95% dos entrevistados dizem que há preconceito racial na festa do município. Desse total, 79% crêem que esse sentimento é forte. Esse é um dos resultados que devem constar de trabalho inédito realizado pelo Observatório da Discriminação Racial da Violência contra a Mulher, projeto iniciado na capital baiana em 2006 com intuito de mensurar e coibir preconceito e abusos durante o Carnaval.
Neste ano, além de receber e registrar queixas, a iniciativa da Prefeitura de Salvador ofereceu orientação jurídica aos reclamantes e realizou uma pesquisa sobre questões raciais, em que 1.620 trabalhadores informais soteropolitanos responderam a um questionário e 120 participaram de entrevistas qualitativas. Também foram realizadas entrevistas com 80 turistas que se divertiram em camarotes e blocos.
Os pesquisadores, 73 profissionais especializados em questões raciais e de gênero da Universidade de Salvador, buscaram identificar a percepção de ambos os grupos em relação ao preconceito racial durante a festa na cidade.
Os dados ainda estão sendo tabulados e analisados. A previsão da Secretaria Municipal da Reparação é de que o resultado seja divulgado até o final de abril. As informações recolhidas no questionário, contudo, permitem adiantar que 59% dos catadores e ambulantes se declaram pretos e 30%, pardos; 88,2% afirmam receber menos que três salários mínimos — sendo que 38,2% ganham até um salário mínimo e 37,8% dizem sustentar entre três e seis pessoas com essa renda.
A percepção dos ambulantes e catadores reflete uma divisão visível nos blocos de Carnaval de Salvador, avalia a secretária Municipal da Reparação, Antonia Garcia. "Há uma hierarquização muito clara nos grandes blocos, como os de Chiclete com Banana e de Ivete Sangalo", afirma. Os cordeiros, que demarcam com cordas o espaço dos foliões que seguem o bloco, são na maioria negros, assim como os ambulantes. "E, dentro dos blocos, há um mar de brancos, uma configuração muito clara da realidade brasileira", descreve a secretária, que é socióloga.
Com os turistas, a Prefeitura já realizava pesquisas em que a limpeza e a segurança pública da cidade eram elogiadas. Inserir a questão racial foi uma forma de avaliar qual é "a percepção do turista e se ele está ou não alienado em relação a essa problemática".
"Entre os turistas, uma análise preliminar permite dizer que metade acredita que existe o racismo no Brasil e que ele é forte", afirma a secretária. "Eles crêem que a mulher branca não sofre discriminação, enquanto a mulher negra está no outro extremo, como a mais discriminada."
O Observatório da Discriminação Racial da Violência contra a Mulher foi criado em 2006 pela Secretaria Municipal da Reparação, com apoio do PNUD, para receber reclamações dos trabalhadores informais contra abusos de fiscais da prefeitura durante o Carnaval. Foram contabilizadas 128 ocorrências naquele ano. Em 2007, esse número saltou para 422. Em 2008, 55.
Estima-se que cerca de 15 mil pessoas de todas as partes de Salvador se desloquem ao centro da cidade para realizar atividades informais durante o Carnaval. Desse total, 10 mil têm registro na Prefeitura.



Saiba mais sobre o programa de Combate ao Racismo Institucional no Brasil, apoiado pelo PNUD e no qual estão incluídas as ações ligadas ao Observatório da Discriminação Racial.